FUGA



Corta profundo em meu coração, visceral, a carne rasgada pela ignorância, pela antítese de meus instintos, pelo não-ser diante da possibilidade de ser a cada instante mais distante de meu dia.
Então para fugir, ponho os fones-de-ouvido e escuto os sons de locais distantes, — vento, verde, os sons… — trago as possibilidades, afasto-me do aqui e do agora, vivo por alguns minutos uma vida que não é minha, de um mundo que nunca conhecerei e ainda assim que é meu, no sentido em que todo o mundo nos foi herdado.

Então respiro o ar que preenche os meus pulmões e finjo ser o ar que preenchem outros pulmões, fecho o s olhos e enxergo os dias que clareiam outros olhos, sorriu e alegro-me com uma vida vivida por um outro “eu”, um “eu” distante, um “eu” de meus planos e sonhos, um “eu” que em meu desespero já imaginei nunca alcançável e que hoje, em minha aceitação, começo a acostumar-me… se por um instante puder vive-lo vivo-o agora.

Respiro profundo, o vento, os animais, o sol, a paz…
Então abro os olhos e tudo se esvai, retiro os fones e preencho-me do agora. Reponho a máscara sem sorriso e sem glória e retorno.

Chama-me nas salas, na batalha fadada ao fracasso do crivo de indivíduos que jamais compreenderiam o que penso, não pela minha necessária superioridade , mas pela distinção absoluta da inclinação de nossos corações.

Obrigam-me… não, melhor…Ponho-me a mim mesmo na posição de ser obrigado a seguir certas regras que repudio, ordens de mulheres e homens que não respeito… como posso ainda respeitar-me ao fim do dia ?

Não há força que suporte a ventania da falta de sentido, enquanto a sua proporia fundação é abalada pelo terremoto da auto-acusação.

Enfraqueço-me, e de quem é a culpa se não de mim mesmo ? pus-me aqui para seguir os desejos de outros, mantenho-me aqui para preencher a recitação de um falso credo que me foi entregue:
Creio nos prospero pai, todo poderoso, criador das cidades e do asfalto, e em seu único filho o homem moderno e “livre”, creio na força-de-vontade, na santa prosperidade, na comunhão dos burgueses, na remissão das fraquezas, na ascensão da carne, e na vida prazerosa, amém.
Então obedeço e numa paródia satânica do abandono da carne, abandono a alma e entrego-me a fragorosa e falsa necessidade.


— Marcelo Jatobá de A jr

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