Homem-Engrenagem

A sociedade industrial por definição privilegia a inteligencia operacional, a qual difere da capacidade de um símio para a utilização de ferramentas tão somente pela quantidade, mas não qualidade do processo. É somente a distancia na quantidade de regras a serem aprendidas por um aluno de medicina e por um chimpanzé sob treinamento o que os diferencia em termos de inteligência.

O que verdadeiramente distingue o Homem do “Bicho”, aquilo que constitui uma barreira intransponível entre o “Ser humano” e o “Ser animal”, que é a Inteligencia Intuitiva, ou seja, a capacidade de abstração profunda que faz do homem o único Ser com potencial de desenvolver uma linguagem que pode expor não apenas a realidade percebida por seu corpo, mas também uma outra não sentida, porém intuída, esta inteligência de modo algum se faz necessária numa sociedade onde o homem é uma mera engrenagem, lubrificada pelo álcool e as drogas, pelo sexo ocasional, o consumo excessivo e pelas explosões de euforia histérica em shows de música, que o fazem esquecer artificial e momentaneamente aquele ranger laborioso que detesta, o fruto do desgaste de seu trabalho, permitindo que o seu dia, desprovido de sentido, possa ser tolerado, talvez com um ou dois ansioliticos antes de dormir.

A vida do homem moderno é separada entre a servidão humilhante e as recompensas desta, que são os meios para alimentar os desejos de sua vida animal mais básica: o sexo, ou a promessa deste, os alimentos variados, e as posses, ou a promessa destas.

Assim, aqueles que sobrevivem neste mundo baseados tão simplesmente em sua inteligência operacional, como cães de Pavlov recebem estímulos de recompensa por serem “bons meninos” no exercício de suas ignorâncias. Terão ao fim de seus turnos laborais todas as delicias materiais que possam alcançar (ou a promessa destas). Em troca, além de seu trabalho simiesco, serão macacos cegos e surdos para o absurdo, o ilógico e o insano, manter-se-ão insensíveis diante da loucura que lhes circundam, e até a amplificarão, repetindo enfim em alto e bom som que “se faz necessário obedecer as leis, pois as leis são leis”, sem notar que as leis de uma sociedade moderna são na verdade os desejos arbitrários de um grupo de poderosos dominantes sobre um grupo de animais-de-carga servis.

Os escravos de fato passaram a amar a servidão, como previu Aldous Huxley, pois com o pagamento da servidão de seus espíritos (que lhes foi quebrado na infância) e a condenação de suas almas (em cuja existência não creem), ganham em troca o conforto de seus corpos, que é a unica coisa que de fato reconhecem. Por isto mesmo sentem dores cujas origens eles não conseguem apontar, e muito menos sabem como corrigir.

– Marcelo Jatobá A. Jr.

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